Hotel Fischer

o início da verticalização

Acervo da família Fischer. Hotel Fischer: Fotografias & Memórias.

Hoje, ao passear na Praia Central de Balneário Camboriú é impossível não se deparar com os grandes prédios e hotéis que se estendem imponentes em direção ao céu e ao longo da orla... É um fato que Balneário Camboriú é atualmente uma cidade totalmente voltada para o turismo, sendo este uma de suas principais economias, juntamente com a construção civil.  

Mas como nada se constrói de repente, foi lá em 1957, com a inauguração do famoso Hotel Fischer, no dia 15 de dezembro, que essa característica marcante do município começou a ser edificada. Hoje o hotel, que já não existe mais nos seus moldes antigos, pode ser considerado um dos principais responsáveis pela identidade voltada ao desenvolvimento e transformação que a cidade de Balneário Camboriú possui. 

Em janeiro de 2017, a Fundação Cultural de Balneário Camboriú, em conjunto com a equipe do Núcleo Catarinense de Fotografia, concluiu o projeto Hotel Fischer: Fotografias & Memórias. O trabalho resultou em um livro que reconstrói a história do simbólico empreendimento através do uso de fotografias antigas do hotel, funcionários e relatos da família Fischer. 

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Resgate da memória do Hotel Fischer

Confira o livro na íntegra: Hotel Fischer: Fotografias & Memórias.

Nascem os primeiros hotéis de Balneário Camboriú

A partir da década de 1920, muitos moradores de cidades vizinhas, principalmente de origem alemã, como Itajaí e Blumenau, começaram a frequentar a praia de Balneário Camboriú com uma certa constância, criando assim uma demanda para construção dos primeiros hotéis da cidade. 

 

A rede hoteleira de Balneário Camboriú iniciou com o Strand Hotel, ou Hotel do Jacó (como era chamado), uma hospedaria que ficava entre a Avenida Central e a Avenida Atlântica, e que em 1934 viria a se tornar o Hotel Miramar. Na época os primeiros hotéis eram construídos de forma bastante simples, e muitas vezes considerados mais como casas de veraneio.

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Casa considerada a primeira casa de
veraneio da Av. Atlântica, supostamente construída em 1921. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.
Hotel Miramar, década de 1950. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.
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Uma localização privilegiada

Inicialmente o projeto do Hotel Fischer era considerado uma iniciativa ousada, levando em consideração a localização escolhida para a construção de alvenaria que seguia novos padrões construtivos para a época, especialmente em relação à verticalização, que ainda era pouco dominada pelas construtoras. A região ficava distante do centro da cidade, que na época possuía mais estrutura e desenvolvimento. Porém, em contrapartida, o hotel possuía o diferencial de ter como vizinha de frente as diversas ondas quebrando na praia, e como vizinho de fundos o remanso calmo do Rio Camboriú.

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Acervo da família Fischer. Hotel Fischer: Fotografias & Memórias.

O projeto arquitetônico do hotel foi encomendado pela família Fischer em 1956 ao escritório Püller, de Blumenau, que realizou a construção ao longo do ano de 1957. De início a fachada original não agradou à família, que trouxe referências da arquitetura alemã para solicitar alterações no projeto. Com seus quatro andares iniciais, o Hotel Fischer possuía 26 quartos luxuosos e capacidade para atender até 108 hóspedes. Foi também o primeiro hotel de Balneário Camboriú a possuir banheiro em todos os quartos.

Por conta de todo o seu destaque estrutural, o hotel era um sucesso e recebia hóspedes de todos os cantos do Brasil e do mundo, passando a ser o escolhido também nas ocasiões de visita de presidentes como João Goulart e Juscelino Kubitscheck. 

Em 1950 Balneário Camboriú tinha pouco mais de uma centena de casas, a maioria de pescadores. Os funcionários do hotel nessa época eram principalmente da comunidade local. Na época, os homens geralmente viviam da pesca, e as mulheres e filhas trabalhavam em hotéis e restaurantes da região.

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Barcos de pesca em frente ao já inaugurado Hotel Fischer, década de 1960. 
Acervo Histórico de Balneário Camboriú.

Construção da BR 101 impulsiona o turismo

Nos anos 50 não havia estrada de asfalto, o que acabava dificultando a chegada do turista até a cidade. De Balneário Camboriú até Curitiba, por exemplo, eram de 8 a 9 horas de viagem, já para Florianópolis o trajeto era de quatro horas. Por conta disso, um momento de grande fomento no turismo se deu após a construção da BR 101 na década de 70, obra que começou em 1953 e demorou 18 anos para ser concluída. Antes da BR 101 balneário era praticamente inacessível e o turista só podia viajar pela serra, mas com a nova passagem pelo município catarinense à beira mar, a rodovia consequentemente ajudou a impulsionar o turismo.

O reflexo dessas mudanças foi a percepção da família Fischer de que o hotel havia ficado pequeno para a nova realidade turística da cidade. Assim, em 1972 deu-se início ao projeto para a reforma e ampliação da estrutura. O novo edifício apresentava 12 andares e ficava encostado na lateral do antigo hotel. O estilo arquitetônico do projeto seguia um padrão recorrente no início dos anos 70, momento de popularização da arquitetura modernista. Também foi implantado o primeiro heliponto da cidade no topo da estrutura, ainda pouco utilizado na época.

Ampliação da estrutura

O antigo da lugar ao novo

Vista de frente do novo prédio, inaugurado em 1975. Imagem: Circa 1980. 
Hotel Fischer: Fotografias & Memórias.

Apesar das melhorias, o crescimento da cidade acabou atingindo o Hotel Fischer, que não conseguia mais manter todo o seu potencial dos anos iniciais. Com o início dos anos 2000, vieram também algumas mudanças. O setor turístico e hoteleiro de Balneário Camboriú modernizava suas instalações e a cidade começava a apresentar características do seu crescimento vertical e explosão da construção civil e do setor imobiliário. Assim alguns edifícios, mais antigos e menores, começaram a ser demolidos para dar lugar a prédios de grande porte. 

Após 52 anos de atuação e incontáveis hospedagens, o hotel fechou suas portas em 2009. O fato do empreendimento estar fechado, somado à falta de articulação de políticas públicas e às generosas ofertas de negócios proporcionadas pela construção civil foram os principais fatores que levaram à venda do hotel, e, consequentemente, sua demolição em 2012. O terreno foi comprado por uma construtora, que hoje realiza no local a obra do novo empreendimento imobiliário residencial "Fischer Dreams".

Apesar de não ter sobrevivido aos novos tempos, o Hotel Fischer e a postura visionária da família Fischer deixaram uma marca eterna: ajudaram a construir a identidade cultural da cidade, tão reconhecida por seu desenvolvimento turístico e imobiliário.