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Estrada da (P)rainha

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A estrada que já foi trilha

Morro do Corrêa

Estrada da prainha que perdeu o P

Estrada da Rainha, década de 1989. Acervo histórico de Balneário Camboriú.

Localizada ao Norte de Balneário Camboriú, a Estrada da Rainha é hoje uma via panorâmica que serve como ponto de ligação entre a Avenida Atlântica e a Praia dos Amores e a Praia Brava. A passagem, de 1km de extensão, foi inaugurada oficialmente em 2003, mas o caminho que há no local é histórico. Sua função de travessia já era exercida há muito tempo, sem o concreto e de forma totalmente rústica e natural.

Hoje a estrada fica próxima ao acesso do Deck do Pontal Norte e também proporciona acesso inicial pela rodovia ao topo do Morro do Careca, mas em 1920 a Estrada da Rainha era uma trilha por onde só passavam pedestres e carros de boi, pois na época o único transporte era a carroça. Houve um tempo em que não existia a Avenida do Estado na cidade, e a estrada de chão batido ficava somente na beira mar. Por ser bem localizada, próxima da costa, a picada no meio da mata servia como atalho para quem quisesse cruzar o morro. Muitos moradores locais utilizavam o caminho para ir a pé até o município de Itajaí. Há inclusive lendas de que há muito tempo o caminho teria servido de passagem para os indígenas. 

Tempo depois enfim foi construída a Avenida Osvaldo Reis, uma rodovia oficial que facilitava o acesso entre as duas cidades, Itajaí e Balneário. Mas, ainda assim, a Estrada da Rainha continuava sendo utilizada pelo pessoal mais aventureiro. O comerciante Paulo Olindino Miguel, de 59 anos, que morou a vida inteira na Barra Norte, comenta que a extensão da trilha em meio à mata ia até onde fica atualmente a rotatória da Praia Brava.

 

"Era um paraíso, nós subíamos e quando chegávamos bem no topo era uma das coisas mais lindas que a minha mente ainda lembra. Tinha o trilho, as árvores todas uma em cima da outra e nascentes de água correndo por diversos lugares", relembra, como se pudesse visualizar na mente a paisagem deslumbrante.

Antes de se tornar Estrada da Rainha, o morro onde o caminho ficava localizado era conhecido por Morro do Corrêa, devido à uma antiga família com o sobrenome que vivia no local, na época conhecido por Canto da Praia. Da mesma forma, a praia hoje conhecida como Praia do Buraco, no caminho do Deck do Pontal Norte, também levava o sobrenome da família, Praia do Corrêa, por ser o local em que eles residiam na época. 

 

Essa questão dos nomes sempre foi algo bastante controverso. Há uma dessas histórias, passada de boca em boca, que diz que a Estrada da Rainha na verdade se chamaria Estrada da Prainha, com um P adicional. Os rumores seriam de que havia uma placa antiga no local com o dizer 'ESTRADA DA PRAINHA', e que certo dia a letra P teria caído da placa, ficando assim o nome 'RAINHA' por tanto tempo, que pegou e passou a ser chamado dessa forma. 

 

Quem cultiva um certo ódio por esta confusão com os nomes dos locais da cidade sendo constantemente alterados é o nativo Carlos Alberto Schlup, de 68 anos.

 

"Aqui se tem mania de mudar o nome das coisas... Eu tenho uma aversão gigante a isso. Hoje chamam de Estrada da Rainha, mas que rainha passou por ali? Nenhuma", analisa o senhor.

 

Seu Carlos também questiona o porquê do nome do lado norte da cidade não ter se mantido como Canto da Praia.

 

"Em Itapema tem um local com esse nome... Florianópolis tem o canto da lagoa. Por que Balneário tinha que mudar? Também tem aquela prainha depois da Praia do Buraco, que agora já tão chamando de Praia do Coco, mas por que se nunca teve coco ali?", questiona. 

 

O nativo do bairro dos Pioneiros, João Miguel, de 63 anos, mais conhecido como seu Tata, sabe responder a pergunta de seu Carlos. Segundo ele, a Praia do Coco foi uma nomenclatura inventada pelos turistas que iam surfar no local.

 

"Eles diziam que por conta de ser uma praia de tombo, a onda quebrava e dava aquele estouro que chamavam de coco. Mas realmente nunca existiu nenhum pé de coco por lá", esclarece. 

 

Seu Tata também foi um grande frequentador do caminho da atual Estrada da Rainha. Ele comenta que quando era mais novo frequentava o local para caçar passarinhos. "Hoje eu tenho outra mentalidade, não posso ver um passarinho preso em uma gaiola que fico revoltado, mas na época era normal. A gente ia lá caçar e fazia viveiros grandes. Às vezes soltávamos os passarinhos, mas às vezes eles morriam", relata. 

 

O senhor conta que no passado também existiam moradores no local. Bem no topo do morro havia uma família, que fez um aterrado ali e possuía duas carroças. Por conta da atividade, o homem era conhecido como seu Maneca dos Bois... Mais ao pé do morro havia uma outra casa de uma senhora chamada dona Inês que tinha até criação de vacas no local. Ainda mais no passado, sua casa dava lugar a um barracão enorme que tinha frente para a lagoa e fundos para a atual rua Miguel Matte.

 

"Quando a maré enchia entrava água mesmo tendo gente que residia ali. Nós chamávamos o local de barracão do seu Antônio Violante, porque ele morava ali na época. Era normal dar esse tipo de nomenclatura pras coisas, afinal todo mundo conhecia todo mundo", conclui. 

 

Hoje o morro serve de morada apenas para os grandes edifícios, e a trilha acabou se tornando estrada. Mas, ainda assim, a Estrada da Rainha segue facilitando caminhos e servindo não apenas como passagem, mas também como um símbolo de memória e história de Balneário Camboriú.

Moradia na Rainha

Estrada da Rainha, 2021. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.