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Parte interna da Capela da Paz, 2021. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann

Capela da Paz

A Fé Sobrevive em Meio ao Concreto

Quem passa pela rua 2300, próximo da praia no centro de                                 Balneário Camboriú, fica difícil não se impactar com a curiosa e quase utópica visão de uma igrejinha dentro de um prédio residencial... A atual aparência suntuosa do prédio, que quase parece engolir a capelinha, disfarça que o local já foi ponto assíduo de encontro dos religiosos de Balneário Camboriú, e de certa forma ilustra bem o desenvolvimento do município. 

A chamada Capela da Paz ou igrejinha da 2300 é tombada pelo Patrimônio Histórico, Cultural e Arquitetônico do município de Balneário Camboriú, e hoje encontra-se dentro do grande edifício Tour Chapelle Residencial. A capela foi inaugurada no dia 22 de Janeiro de 1961 pela comunidade Luterana que na época vivia na cidade. O local viria a servir como ponto de encontro para moradores da região e veranistas luteranos de cidades vizinhas como Blumenau, Pomerode, Brusque e Rio do Sul. Os luteranos da então “Praia de Camboriú” antes precisavam fazer o trajeto, na época nada viável, até Itajaí, para participar dos cultos religiosos que lá eram realizados somente uma vez por mês.

A construção da capela foi muito importante para o crescimento do próprio município, considerando que as principais famílias que vieram de regiões do Alto Vale e se estabeleceram em Balneário Camboriú, principalmente no comércio, eram luteranos. O antigo morador da cidade Antonio Jorge Borba, de 68 anos, conta que na época a religiosidade era muito forte no município. 

Ponto de encontro dos Luteranos da região

"Os alemães das cidades vizinhas vinham pra cá passar o fim de semana. Porém, o pessoal tinha que ir embora no domingo de manhã por conta do culto que havia em suas cidades à noite. Daí, para facilitar e ficar mais tempo na cidade resolveram fazer uma igrejinha aqui", comenta. 

Capela da Igreja de Confissão Luterana, na rua 2300, década de 1960.
Acervo Histórico de Balneário Camboriú.

Quem teve a iniciativa de criação da capela?

A luterana de Curitiba Berty Jensen, que veio morar na praia em Camboriú no ano de 1956, foi responsável por puxar a frente da criação da capela. Ela teria batido de porta em porta pedindo apoio para construir a igrejinha. Inicialmente os cultos eram realizados na sua residência através da Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas (OASE), mas o espaço acabou ficando pequeno, pois cada vez mais aumentava o número de fiéis.

Dona Berty solicitou ao pastor de Brusque, que atendia a comunidade de Itajaí, que uma vez por mês atendesse em Balneário Camboriú. Um dos frequentadores dos cultos era o pedreiro e amigo de Dona Berty, Paulo Tesch, perito em construção, que recebeu um pedido de ajuda para construir a capela. Assim a obra foi concluída pelo Sr. Tesch com a ajuda de mais um pedreiro em 7 semanas. Daí em diante, os cultos eram realizados rotineiramente e as edificações do entorno serviam para a realização de retiros e seminários.

O espaço ficou pequeno para tantos fiéis

Quem vivenciou a época e acompanhou toda a transição na prática foi a secretária da atual Igreja Evangélica de Confissão Luterana do município de Balneário Camboriú, Dalys Marlene Musskopf Geiser, de 64 anos. A senhora conta que hoje a Capela da Paz continua sendo o berço da comunidade luterana, mas que o espaço ao longo dos anos acabou ficando pequeno demais considerando o aumento dos fiéis. Sendo delimitada em 1988, a nova sede oficial que fica na Rua Indonésia, no Bairro das Nações.

 

"Eu participava de algumas reuniões quando a sede ainda era na capela. Toda a atividade era gerada lá, tinha encontros durante a semana inteira. Aos sábados era o encontro das crianças no clube infantil… Assim a igrejinha começou a encher, a comunidade foi crescendo e já não comportava mais tanta gente, até porque a capela é bem pequena", complementa.  

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Secretária da atual sede da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do município de Balneário Camboriú, Dalys Marlene Musskopf Geiser, exercendo o ofício. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

A secretária explica que a comunidade entende a questão da capela estar atualmente dentro de um edifício como própria consequência do desenvolvimento da cidade.

 

"Aquela área toda pertencia à igreja, inclusive na parte da esquina com a Av. Brasil havia uma casa de madeira que também era propriedade da Igreja Luterana. Foi feita uma permuta e hoje uma construtora é dona do local. Tiveram que fazer toda essa adaptação porque não podiam derrubar mesmo. Mas, para nós o importante é que ela foi preservada", destaca Dalys.

A secretária cita como exemplo a Paróquia São Sebastião, na Avenida do Estado Dalmo Vieira, no Bairro Ariribá, que da noite para o dia teria sido derrubada. "Foi muito triste ver aquilo. A igreja era no mesmo local onde é hoje, porém foi derrubada e reconstruída. Nisso a história se perde... E para o próprio município é importante ter essas construções preservadas", destaca. 

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Visão interna da Capela da Paz atualmente. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

Capela da Paz nos dias de de hoje

Atualmente a capela tem capacidade para 40 pessoas sentadas e lotação máxima de 60. Sua dimensão é de 8,80m de comprimento por 6 metros de largura. O horário de funcionamento é de segunda à sexta-feira, das 14h às 18h. A capela guarda em seu interior uma obra sacra valiosa, uma cruz com Cristo, talhada em madeira nobre, pelo renomado escultor nascido em São Bento do Sul/SC, Sr. Hermann Teichmann. 

Hoje a Capela da Paz é considerada ecumênica e recebe celebrações de comunidades de diferentes religiões, inclusive da Luterana. "Temos um ofício religioso lá, na pandemia fizemos até umas gravações de cultos. Direto tem casamentos agendados para serem feitos na capela. É um lugar simbólico que muitas vezes atende à necessidade de famílias menores", relata Dalys.

O atual pastor da igreja Evangélica de Confissão Luterana em Balneário Camboriú, Eloir Carlos Ponath, que diz ter 43 anos no documento e muito mais em espírito, conta que há um projeto para realizar uma celebração mensal na capela quando acabar a pandemia do coronavírus. "Agora  não adianta muito porque o espaço é pequeno e o pessoal também acaba não indo", explica. 

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Pastor Eloir Carlos Ponath no altar da atual sede da Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Balneário Camboriú, ao lado da  rosa que é símbolo dos Luteranos. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

Avenida Martin Luther: uma homenagem aos luteranos

Desavisados podem imaginar que a Avenida Martin Luther, no bairro das Nações, tenha algo a ver com o pastor e ativista americano Martin Luther King, que lutava contra a discriminação racial. Mas na verdade o nome da avenida homenageia Martinho Lutero e consequentemente toda a comunidade luterana da cidade de Balneário Camboriú.

Martin Luther foi um monge católico que iniciou um movimento de contestação à doutrina da Igreja Católica no século XVI. Lutero não concordava com algumas práticas da igreja na época e buscou realizar uma reforma no interior do catolicismo, questionando algumas de suas ações. Aqueles que se identificaram com os ensinamentos de Lutero acabaram sendo chamados de luteranos. "O objetivo dele não era fundar uma igreja, mas sim reformar a igreja dele que era católica. Mas estava tudo muito desviado na época, o clero e o governo eram uma coisa só", complementa Dalys.

Retrato do reformador Martin Luther decorando a parede da secretaria da atual sede da Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Balneário Camboriú. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

O tombo da Capela da Paz

O tombamento é um ato administrativo realizado pelo Poder Público, nos níveis federal, estadual ou municipal. O objetivo é preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a destruição desses bens.

Em 1998 a Capela da Paz foi tombada pelo patrimônio histórico do município de Balneário Camboriú. A associação Wally Heidrich, proprietária do imóvel, diante do tombamento, teve  dificuldades em manter as edificações do local. Foi necessária a contratação de uma empresa especializada em restauração de edificações religiosas para executar o novo empreendimento respeitando as leis básicas do restauro.

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Capela da Paz com sua estrutura antiga, antes do restauro.
Imagem:
http://capeladapaz.com.br/patrimonio-cultural/.

Antigamente a capela possuía estrutura de fundação baseada nas antigas capelas coloniais. As fundações antigas eram feitas em pedra assentadas sobre uma base de areia e pedregulhos, posteriormente com a parede feita em alvenaria de tijolos, mais fina, estrutura chamada de “auto portante”.

 

O grande desafio para os engenheiros do novo edifício que seria construído no local era manter a integridade da capela, principalmente a contenção da fundação da igreja em função do rebaixamento do lençol freático para a construção do edifício. A restauração precisava manter a originalidade e identidade histórica da capela com intervenções mínimas e pontuais, mantendo seus valores estéticos. Para isso precisou ser empregado técnicas e materiais compatíveis aos originais, além de evitar o uso de materiais degradantes e técnicas que colocassem em risco a edificação.

Em 2012 iniciou-se o processo de restauração da capela, com intuito de preservar o local para ser utilizado pela população como ponto turístico da cidade e para celebrações ecumênicas. Com isso, houve a ideia de conciliar a história com o contemporâneo, mantendo a igreja dentro do edifício e unindo assim o passado e o futuro em um só espaço.

Apesar de atualmente disputar espaço com o alicerce de concreto do prédio residencial, a capela permanece de pé na rua 2300, abençoando e levando paz à religiosos, moradores e até mesmo pedestres e motoristas desavisados que cruzam pelo local. 

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