da extremidade ao progresso

Barra Norte

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Pontal Norte, década de 1970. Acervo histórico de Balneário Camboriú.

As casinhas simples em meio à vegetação, a chamativa construção redonda e a paisagem pouco habitada, cortada pelo largo ribeirão, ilustram a rica simplicidade do Pontal Norte dos anos 70, carinhosamente chamado na época de Canto da Praia. Assim como a Barra Sul, o lado Norte de Balneário Camboriú também teve o seu próprio destaque e desenvolvimento. 

Quem vivenciou essa época na pele foi Olindino Miguel, de 99 anos. Nascido em Itapema no dia 18 de abril de 1922, o senhor, quase centenário, desce sozinho, com desenvoltura surpreendente, as escadas de uma das casas que se encontram no terreno da família, localizado na Rua Antônio Bitencourt, no Bairro dos Pioneiros. 

Com olhar desconfiado, típico de quem já viu muito ao longo da vida, suas memórias se embaralham vez ou outra durante a nossa conversa.

 

"Minha família é de Itapema. Quando cheguei aqui eu tinha 15 anos. Pesquei durantes 4 anos na Barra Sul, depois vim pra Barra Norte onde me casei, e fiquei casado por 65 anos", conta o senhor com olhos marejados ao lembrar do seu passado.

99 anos de vida e 80 de Barra Norte

Seu Olindino Miguel sentado na área do terreno da família, no Bairro dos Pioneiros. 
Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

O filho Paulo Olindino Miguel, de 59 anos, e o bisneto Ary Euclides de Souza Neto, de 25, ajudam a complementar as respostas do pai e do bisavô.

 

"O pai veio de Itapema para Balneário de barco há 84 anos atrás. Arrumou uma noiva no distrito do Rio do Meio, em Camboriú, mas não deu certo, por isso veio pra cá, onde conheceu a minha mãe", explica Paulo.  

 

Seu Olindino teria vindo inicialmente para Balneário Camboriú fazer negócios e, quando chegou na Barra Sul, a qual se referiu diversas vezes como Pontal, encantou-se pelo local e decidiu se mudar, pois já havia alguns familiares vivendo na região. Depois da Barra, sua segunda morada foi onde hoje fica o Itaú da Avenida do Estado Dalmo Vieira. Seu Paulo conta que toda essa região era da família, mas após alguns anos o terreno foi vendido e finalmente comprado um novo no Bairro dos Pioneiros, onde alguns membros da família vivem até hoje.

 

"Todos nascemos aqui. Quando eu vim pra cá, há 60 anos, eu tinha 8 meses de idade", complementa Paulo. O bairro dos Pioneiros é um dos mais antigos da cidade, junto com o bairro da Barra e o bairro Vila Real. Não existe uma constatação oficial de como foi criado o nome Pioneiros, que teria começado de forma aleatória, no famoso boca a boca, mas hoje já possui essa denominação oficial em lei. 

As três gerações da família, seu Olindino, o filho Paulo e o neto Ary. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

Uma história de amor e memória

E foi ali no Bairro dos Pioneiros, na Barra Norte, onde seu Olindino encontrou a esposa,  Celina Caetano Miguel, com quem teve um total de 11 filhos, que se criaram na região da Barra Norte. Atualmente apenas 10 estão vivos, pois uma das irmãs acabou falecendo, assim como dona Celina, que viveu até seus 86 anos. A família comenta que se ainda estivesse viva, a senhora saberia contar ainda melhor sobre o passado da cidade, considerando que nasceu em Balneário Camboriú, assim como seus pais, verdadeiros pioneiros do município.

 

 

 

 

 

 

Dona Celina não é mais viva, porém sua memória está eternizada nas águas da Barra Norte. O novo molhe da região, que atualmente está com as obras em processo de finalização, leva seu nome: Celina Caetano Miguel. A homenagem é fruto de muito esforço da parte dos seus filhos para manter vivo o nome da família.

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Seu Olindino e a esposa Celina comemorando suas bodas de ouro, em 1997.
Acervo pessoal da família.
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Molhe Celina Caetano Miguel, 2021. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

A luta pra preservar o passado na cidade que prioriza o novo

Seu Paulo conta que antes de ser definida, a proposta passou pela Câmara de Vereadores da cidade, onde chegou a receber abstenções por parte de alguns vereadores.

 

"Foi uma briga de 3 meses para conseguir colocar o nome dela no molhe. Nós só conseguimos porque fomos atrás. Esse local tem tudo a ver com ela e com a história dela, afinal ela se criou aqui e ocupava esse espaço", complementa o filho. 


A família ressalta que mesmo que no fim a homenagem tenha dado certo,  ainda tende-se muito a chamarem a obra de molhe da Barra Norte, ao invés de utilizar o nome oficial, deixando de lado a memória simbólica da mãe. "Parece que Balneário perdeu sua identidade e não preserva mais sua história. Se não houver esse resgate, são histórias que vão ficando para trás e acabam sendo esquecidas", analisa Paulo.

Para o Arquiteto e Urbanista Gabriel Gallarza já pode-se dizer que em Balneário Camboriú a própria transformação é uma identidade local.

 

"Costumo pensar que isso já não é um problema, mas sim uma identidade e característica do município. Até porque é uma escolha, tanto de quem mora aqui, como de quem administra a cidade e opta por esse tipo de característica e postura. A memória geralmente é pensada como algo descartável… Porque aqui é o novo que interessa", pontua Gabriel.

Bairro dos Pioneiros: nomeação e delimitação

E quem sempre se esforçou para manter viva a história do bairro e da família é João Miguel, de 63 anos, mais conhecido como seu Tata. O senhor de pele negra e cabelos grisalhos também é filho de seu Olindino e Celina. E, assim como seus irmãos, nasceu no atual Bairro dos Pioneiros, quando a cidade ainda era comarca e pertencia à vizinha Camboriú.

 

Atualmente seu Tata atua como gestor do órgão que cuida da regularização fundiária do município, mas ao longo de sua vida já foi comerciante e também vereador por quatro legislaturas. Sua profissão, além do sustento, lhe proporcionou também o prazer de contribuir com o bairro em algo que lhe orgulha muito: ter feito a denominação oficial do bairro dos Pioneiros e sua nova delimitação.

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Seu Tata e o pai, seu Olindino, na década de 2000. Acervo pessoal da família.
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Retrato de seu Tata em 2021. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

Rio do Nim, um divisor natural 

Seu Tata explica que antigamente os bairros de Balneário Camboriú não tinham uma delimitação oficial. Foi somente depois dessa renovação que o bairro finalmente se intitulou Pioneiros.

 

"Da Avenida do Estado pra cima é bairro das Nações, e da Avenida do Estado pra baixo é bairro dos Pioneiros", ressalta.

 

Essa divisão se deu naturalmente, através da própria paisagem, já que, devido ao Rio do Nim, que cortava o bairro na altura da rua Uganda em direção à praia, formou-se ali um divisor natural.

 

O senhor conta que nessa altura, na Avenida do Estado, havia uma ponte sobre o rio onde costumava pescar e até tomar banho.

 

"A água era completamente limpa, muito diferente de hoje. Seu Nim era um cidadão que morava ali, por isso o nome do rio. Ele tinha rede de pesca, eu pesquei muito com ele ali junto do meu irmão quando éramos adolescentes", relembra Tata. 

 

Assim, ao longo dos anos e com o trabalho de seu Tata, o que antes era centro tornou-se bairro. O gestor conta que na época da mudança chegou a sofrer algumas agressões verbais de pessoas que moravam no local e achavam que seus imóveis seriam desvalorizados pela região não ser considerada mais centro. Apesar das ameaças, seu Tata não se arrepende do feito.

 

"Eu sei que fiz o certo. E hoje o bairro dos Pioneiros é essa potência de bairro de classe média alta cheio de prédios de alto padrão. Hoje o metro quadrado aqui é o mais caro de Balneário Camboriú, fora o centro", complementa. 

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Avenida Atlântica, esquina com a rua 1301, década de 1960. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.

Um deserto chamado Praia de Camboriú

E pensar que a terra que hoje gera até conflito pelo seu valor, em meados dos anos 60 era praticamente deserta. Tata conta que, assim como toda sua família, sempre estudou na Escola de Educação Básica Laureano Pacheco, que ficava no bairro, bem em frente ao terreno da família. Porém, quando chegou no ginásio precisou mudar para a Escola Estadual Presidente João Goulart, que ficava mais no centro da cidade e era a única que oferecia o estudo na época.  

 

"Voltávamos da aula pela Avenida Brasil, que era totalmente de areia, uma areia bem escura. Quando a gente saia da aula às 05h da tarde, às 05h30 já começava a escurecer e vínhamos correndo de medo de passar por ali… Era um deserto vazio, não tinha nada", complementa.  

 

Na época a população era tão pouca, que até mesmo os trechos de praia tinham seus  respectivos "donos". Tata explica que os pescadores apelidavam algumas regiões da praia com seus próprios nomes e apelidos.

 

"Tinha o cangalheiro, que eu nunca soube o que significa... A volta do saquinho que era justamente aquela voltinha que a orla faz na altura da rua 1500 até a 2000. A avenida Atlântica era um caminho, tipo um trilho de areia, com uma vasta vegetação", relembra.

Acontece que a família de seu Tata, assim como os pescadores, também tinha rede de arrasto, o chamado arrastão. E certos dias, no fim da tarde, ia dar laço (que é cercar e puxar a rede), buscando ficar longe de maiores confusões.

 

"Íamos só até uma altura, porque daquele lado a gente tinha medo de passar. Havia outras redes dos nativos lá da Barra também, às vezes estavam cercando lá e a gente até queria ir, mas não ia pelo medo, principalmente quando era mais novo", explica. 

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Ressaca em frente ao Hotel Balneário, década de 1950. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.

Os olhos de seu Tata não escondem o saudosismo ao relembrar que, quando era criança, praticamente não havia nada no bairro. As poucas casas que existiam eram na maioria de turistas, principalmente de Itajaí, Blumenau e Brusque, que vinham para a cidade para veranear ou passar os fins de semana.

 

"As ruas, nenhuma era pavimentada, existia muito vassourão e goiabal, e a gente passava o dia brincando debaixo daquelas árvores", relembra. 

 

O senhor confessa sentir uma certa saudade da época, principalmente pelo fato de que, segundo ele, era uma época muito saúdavel...

 

"A gente andava descalço, corria pelos matos, não tinha maldade, não existia droga, não existia roubo, não existia assassinato... Era uma época em que você era feliz e não sabia", complementa. 

 

Mas, apesar da saudade, seu Tata também demonstra compreender que não há como impedir o progresso.

 

"Hoje Balneário Camboriú se tornou uma metrópole dentro de um espaço de 50 km quadrados… Uma cidade grande em formato de cidade pequena. No futuro a tendência é de que todas as casas que existem hoje venham a se tornar enormes prédios. Vai ser tudo vertical, porque hoje não tem mais como crescer normalmente e horizontalmente", analisa.

Todo esse crescimento é bastante visível nos dias de hoje. Afinal é comum andar por Balneário Camboriú e sempre perceber uma construção nova, especialmente para os turistas que geralmente vêm só nas temporadas de verão. É um fato que toda vez que se retorna ao município sempre irá encontrar uma nova cidade, onde a cada dia há coisas surgindo e desaparecendo.

Saudade não impede o progresso

O terreno que sobreviveu ao tempo

E em meio a essa paisagem volátil, existem poucas residências que se mantiveram no Bairro dos Pioneiros, mas dentre as sobreviventes ainda há um terreno que permanece intacto. A vista quase parece utópica considerando o entorno da cidade… As casas simples, uma próxima da outra, com suas hortinhas em frente à área e a cor verde predominando dentre as demais, contrastam com a visão que se tem ao redor, repleta de prédios e construções. 

 

 

 

 

 

 

 

Antigamente o terreno da família era enorme, com 43 metros de largura e atravessava amplamente a atual Avenida do Estado. Ao longo do tempo as áreas acabaram sendo vendidas ou indenizadas, sobrando somente o espaço atual onde hoje moram 4 dos 10 irmãos ainda vivos. 

 

Apesar do terreno ter resistido ao tempo, Paulo ressalta que o crescimento da cidade foi um processo natural da modernização, e que segue ocorrendo...

 

"Hoje você está vendo esse terreno amplo aqui, mas talvez daqui 1 ano se você chegar aqui vai ter um prédio. Não tem como negar que essa é a tendência", comenta.

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Terreno da família no Bairro dos Pioneiros, 2021. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

Uma grande família de Pioneiros

Laureano Pacheco, a escola do Canto da Praia

Outro aspecto que a família diz ter mudado muito é a questão da educação. Praticamente todos estudaram no colégio Laureano Pacheco, que antigamente ficava próximo à rua Noruega e depois mudou-se para a Barra Norte, em frente ao terreno da família. Eram todas construções de madeira, assim como a maioria das casas.

 

"Hoje em dia a educação é muito diferente, não é como a de antigamente. Parece que acabou o respeito", complementa seu Olindino.

Escola do Canto da Praia, Laureano Pacheco, década de 1950. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.
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Escola do Canto da Praia, Laureano Pacheco, década de 1950. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.

Seu Paulo relembra que antigamente na segunda-feira de manhã era regra todos estarem no pátio da escola cantando o hino nacional. E que hoje esses costumes cívicos e o amor pela pátria já não existem mais daquela forma.

 

"Normalmente não víamos a hora que chegasse 7 de setembro para ir marchar. E a gente ainda ganhava uma conga, que é uma espécie de tambor, uma massinha e uma laranjinha", relata.

 

Praticamente todos os tios e primos tocavam na fanfarra da escola, era uma tradição da família.

Houve um movimento muito forte para manter o nome da escola de EEB Professor Laureano Pacheco, quando ela mudou de endereço para o Bairro das Nações. Porém, mesmo depois de uma história de 102 anos, o colégio acabou e o nome não permaneceu. A nova escola agora chama-se EEB Higino Pio.

 

"Poderia pelo menos ter levado o nome antigo. Hoje parece que as coisas se inverteram, é o poste que mija no cachorro, não o cachorro que mija no poste. A transformação saiu do nosso controle e tomou um rumo que não tem mais volta", desabafa Paulo.

Terrenos que hoje valem milhões eram vendidos a  preço de banana

Na época a família era dona de diversos terrenos da região da Barra Norte, inclusive do local onde atualmente fica o resort Infinity Blue, na Estrada da Rainha, que na época foi vendido a troco de banana. "O que meu pai ia fazer com um terreno daquele naquela época?", questiona Paulo. O terreno continua sendo um só, começa na praia e vem até a Avenida do Estado. Dentro do terreno, no meio dele, havia um bananal, que inclusive ainda existe, de aproximadamente 1500 pés de banana.

 

"Na época a gente vivia de plantação de banana, da pesca e de fazer farinha. Onde hoje é a Rádio Menina ficava o engenho de farinha da família", complementa o filho.

A terra era muito barata e não se dava muita bola pra ela. Muitos dos terrenos que a família tinha na época iam sendo fragmentados e trocados por bois. Essa era uma prática muito comum daquele tempo, quase um escambo. Muitas trocas foram feitas com pessoas que já tinham uma visão do desenvolvimento da cidade. Donos de hotéis, por exemplo, foram os primeiros visionários. Ofereciam os bois e iam pegando os terrenos. "Como iríamos imaginar... Se a gente tivesse uma bola de cristal", divaga Paulo.

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A família chega quase a se perder buscando lembrar de todos os integrantes que a compõem. Pelas contagens, ao todo são 11 irmãos, 26 netos, 28 bisnetos e 3 tataranetos. "Tem tantos que eu já não conheço mais todos", comenta seu Olindino. Inclusive, enquanto conversava com os três integrantes de três diferentes gerações, diversos outros familiares cruzavam ou passavam pela gente, cumprimentando com um sorriso.

Família completa, o casal seu Olindino e Celina com seus 11 filhos. Acervo pessoal da família. 

Esse clima familiar resgata como não só as próprias famílias, mas também as famílias do bairro eram mais unidas num geral, considerando a pequena quantidade de moradores da época. Paulo conta que antigamente era muito comum famílias que se casavam entre si. Cita como exemplo a família do seu Janga, um conhecido vigia de Tainhas, que até hoje mora próximo ao terreno da família. Dona Celina era prima de uma tia da família dele, então eram duas grandes famílias que, com o tempo e os casamentos, acabaram se juntando.

 

"Tenho um tio que o filho dele é casado com a filha da irmã dele. Ou seja, primos de primeiro grau que casaram. As famílias eram muito grandes, e naquele tempo, nem sempre, era algo estranho", explica Ary. 

 

Mesmo sendo da geração mais nova, Ary comenta que quando era criança, em 96, o bairro ainda era totalmente diferente do que é hoje. Na época só havia casas e muito mais tranquilidade.

 

"A mãe abria o portão e só dizia vai. A gente voltava com a canela toda ralada e andava pelo bairro inteiro. Onde hoje tem uma academia, era um bambuzal, eu brincava direto ali. Mesmo sendo algo recente, o bairro já mudou tanto que isso se torna praticamente apagado hoje", observa.

 

Ao escutar o relato do sobrinho, Paulo logo o questiona: "E agora eu vou te perguntar: o teu filho vai fazer isso?". O silêncio seguinte dos dois automaticamente responde a pergunta sem precisar usar palavras.

Durante a conversa, seu Paulo também volta no tempo, relembrando as diferenças do bairro há 50 anos atrás.

 

"Tínhamos muita liberdade. Em cada esquina tinha um campo de futebol onde hoje tem prédios e prédios. A gente voltava da escola, acabava de almoçar e voltava pra casa só quando tava anoitecendo… Ficávamos por aí caçando e pescando, não havia essa malícia que existe hoje", pontua.

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Vista do Hotel Marambaia, década de 1970. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.

Hotel Marambaia: um ícone do turismo

A renda geralmente vinha da pesca, porém quando a pesca estava em baixa faziam-se outros serviços gerais. O patriarca, seu Olindino, foi se adaptando às transformações, chegou a trabalhar com aluguel de casa de veraneio quando a cidade começou a ter um maior potencial turístico, e também ajudou a construir o Hotel Marambaia, um símbolo dos tempos pioneiros do turismo na cidade. 

 

 

 

 

O Marambaia Cassino Hotel foi inaugurado em 1964, mesmo ano de emancipação da cidade de Balneário Camboriú. O prédio, que foi projetado pelo arquiteto modernista Roberto Felix Veronese, ousou pelo seu formato arredondado, considerado na época o primeiro hotel do mundo neste formato. Posteriormente a rua do Marambaia teria sido homenageada com o nome do dono do hotel, Osmar de Souza Nunes, que fundou o empreendimento. 

 

Seu Tata diz lembrar perfeitamente do início da construção do Hotel Marambaia.

 

"Na época era algo diferente, como eu posso te dizer... era uma coisa estrambólica pra gente na época".

 

O hotel acabou se tornando um ícone da cidade, que hoje em dia é inclusive tombado por lei. Mesmo após 50 anos e com todo o desenvolvimento da cidade criando arranha-céus mais altos e ousados, o velho Marambaia só perdeu mesmo o cassino, já que, por lei, os jogos de azar no Brasil são proibidos. De resto, o charme e pioneirismo continuam os mesmos, assim como o endereço, na Barra Norte, de frente para o mar.

Para o arquiteto Gabriel Gallarza, o Hotel Marambaia traduz mais a essência da cidade do que outros tipos de arquitetura mais antigas.

 

"A arquitetura moderna dos anos 60 e 70 também é memória e história da cidade, porque foi a arquitetura moderna, de linhas retas e com características urbanas, que identifica mais com o que é a cidade hoje e com o que ela escolheu ser", complementa.

Vídeo de 1960 que mostra a praia de Balneário Camboriú e os hotéis da época, incluindo o Marambaia.
Link para o vídeo no YouTube.
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Construção do Hotel Marambaia, década de 1960. Acervo Histórico de Balneário Camboriú.

Barra Norte: o point do progresso

 O progresso passou cedo a fazer parte da Barra Norte. O local foi palco da exploração desde o início do desenvolvimento do setor turístico da cidade, inicialmente através da construção do Hotel Marambaia. E até os dias atuais esse desenvolvimento só expandiu, com diversos novos e recentes investimentos sendo implementados, principalmente no setor turístico.

 

A paisagem do antigo Canto da Praia começou a ser modificada inicialmente com a construção da ponte de ligação entre a Avenida Atlântica e a Estrada da Rainha, época em que também aumentou a urbanização da região e por conta disso o Bairro dos Pioneiros foi o primeiro do município a ser pavimentado.

Novos investimentos e equipamentos turísticos 

Recentemente a região recebeu ainda mais investimentos que modificaram totalmente sua paisagem, como a construção do Molhe Celina Caetano Miguel, seguido da implementação da roda gigante FG Big Wheel… E a tendência é só aumentar, principalmente considerando o projeto do alargamento da faixa de areia da Praia Central, que já está em implementação. A tubulação começou a ser instalada justamente pelo lado Norte da cidade, estendendo-se posteriormente ao longo de toda a orla da Praia Central.

 

 

 

 

 

 

 

A família acredita que o crescimento do lado norte foi um dos mais rápidos da cidade. "Se explodiu de 15 anos pra cá foi muito", comenta Paulo. Já Tata analisa como antes o pontal norte mal era lembrado e hoje ganhou até as redes sociais e a mídia.

 

"Antigamente ia-se nos finais de semana na Barra Sul e era lotado, hoje o lado norte e o lado sul já se equiparam na quantia de frequentadores... Antes mal se via fotos da Barra Norte, agora todo mundo quer ir até lá pra tirar foto com a roda gigante", complementa seu Tata.

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Início da implantação do alargamento da faixa de areia da Praia Central. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann
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Novos equipamentos turísticos do lado norte da cidade, Roda gigante FG Big Wheel e Molhe Celina Caetano Miguel, 2021. Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

A ponte de madeira que virou de concreto

Os turistas, que hoje tiram selfies no molhe com a roda gigante ao fundo, se quer imaginam o paraíso natural abundante da região no passado. Na época não existia a atual ponte que liga a Avenida Atlântica com a Estrada da Rainha. Para contornar a situação havia uma pequena ponte de madeira sobre o rio, que era o único elo entre os dois lados.

 

Quando a maré enchia muito a água transbordava e não dava para passar pela ponte. Bem em frente da pontezinha, onde hoje fica o Edifício Antares, havia uma das primeiras churrascarias de Balneário Camboriú, a chamada Cabana Alvorada. Hoje a ponte ainda existe no mesmo local e continua servindo como uma das travessias sobre o rio, mas agora a estrutura de madeira deu lugar ao concreto bruto.

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Pontel atual que possibilita travessia sobre o rio do Canal do Marambaia, 2021.
Imagem: Yasmim Primieri Kochhann.

Ruas do bairro homenageiam os pioneiros

Assim como o turismo foi se transformando, a paisagem da região também se alterou com o tempo. As ruas do bairro hoje contemplam pessoas que fizeram parte de sua história. Com a nova delimitação, do Marambaia em direção sul, as ruas receberam novos nomes. Dentre eles há apenas um em homenagem a um nativo do bairro, Protásio Boaventura. A rua do Hospital do Coração chama-se Arthur Max Doose, um dos primeiros moradores do Bairro das Nações, que morava na rua Uruguai. Já as ruas Isidoro Caetano, Julieta Lins e Jacob Schmitt eram todos moradores de Blumenau e Itajaí que tinham casas ali e foram homenageados. 

A Avenida do Estado não costumava passar por onde passa hoje. Ela ficava na Antônio Bittencourt, saía na Miguel Matte e depois se ligava novamente na avenida. Havia uma vasta mata preservada que vinha até o Rio Marambaia. Trecho chamado na época de mato do alemão por conta do proprietário, um senhor previsivelmente alemão, que tinha uma casa no mesmo estilo.

 

"Lembro que ele também tinha dois cachorros pastor alemão. Nós íamos muito caçar lá embaixo naquela mata, era uma mata fechada e muito preservada, mas depois que passou a avenida tudo se transformou… Onde hoje é a avenida era tudo mangue, até a beira do rio", relembra Tata.

 

Apesar de todas as transformações geradas pelo progresso, a Barra Norte segue viva e abundante, encantando os turistas e moradores de Balneário Camboriú. Seu Tata se emociona ao ressaltar o quanto sente orgulho em fazer parte da evolução do Canto da Praia.

"Eu fico olhando as fotos e penso... Puts eu vivi isso aqui, eu ajudei a construir isso aqui. Sinto orgulho da minha e de tantas outras famílias que contribuíram com tudo isso e hoje já não existem mais. A vida da gente tá diretamente ligada com esse espaço... Mas bem no fim Balneário é pra mim, é pra você e é pra todos", conclui o pioneiro.

A história permanece viva

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Avenida Atlântica, em frente ao restaurante Chaplin. Acervo de Antonio Jorge Borba.